Recentemente a FALE (Faculdade de Letras da UFMG) teve momentos de pânico e desespero quando um jovem em uma cadeira de rodas, exibindo um revólver, atirou contra o chão, contra um computador e finalmente contra sí próprio. O jovem rapaz veio a falecer no hospital um dia depois. Mas quem era esta pessoa que se foi, deixando tantas saudades naqueles que o conheciam bem? Naqueles que tiveram a honra de conviver com ele em outros momentos?
Seria João um estranho, como os jornais buscaram retratá-lo? Seria ele um louco, um atirador e homicida? Não. João certamente não era um estranho, nem tampouco um assassino. Para nós que tivemos a honra de conviver com ele durante alguns anos, João sempre foi um grande amigo, uma pessoa alegre e extrovertida, sempre carinhoso e brincalhão. Por isso, foi com enorme choque que recebemos a notícia de que ele tivesse atirado contra alguém, e de que ele tivesse atirado contra si mesmo. Jamais imaginaríamos que ele chegasse a fazer algo assim e agora choramos a sua perda. Também nos lamentamos por não ter tido a oportunidade (ou não termos nos dado ao trabalho) de demonstrar a ele o quanto nós o amávamos. Portanto, o mínimo que podemos fazer agora, é contar a todos quem era João Luciano. Não o João dos jornais sensacionalistas, nem o João dos comentários sarcásticos nos corredores, mas aquele que nós conhecíamos e admirávamos. Nosso querido amigo que tanta falta nos fará.
Conviver com João era sempre uma oportunidade para o diálogo e para conhecer bem o que as pessoas portadoras de necessidades especiais sentem em seu dia-dia. João falava sem rodeios de seus dramas, de suas dificuldades. João falava de como sentia-se rejeitado pelos outros devido à sua condição física. Ele também mencionou mais de uma vez que não esperava envelhecer naquela condição, pois sabia que à medida que o tempo passasse, maiores seriam os desafios que ele teria de enfrentar. Por outro lado, João nunca deixava transparecer tristeza em seu falar. Nunca deixava de nos oferecer um sorriso, nem jamais deixava de nos emocionar ao nos mostrar como os mais pequenos gestos que lhe estendíamos eram valorizados e guardados com todo o carinho e atenção. Uma letra de música, uma mensagem de apoio, um papel de bala, uma nota de moeda estrangeira, uma foto...tudo se tornava memória, e tudo era convertido em um tesouro que nosso amigo guardava com carinho. João nos exibia em seu caderno estes tesouros que ele tanto estimava, e nós nem sempre compreendíamos o valor que aquelas peças tinham para ele.
João sabia o que era belo, e apreciava a beleza das mulheres, principalmente das loiras. Nós brincávamos com isto e nos divertíamos. Mas para nosso amigo, isto era coisa séria. As loiras tinham um quê a mais do que as outras mulheres, e ponto final. Ele era um especialista no assunto, e não nos restavam argumentos contra o seu vasto conhecimento do mundo das moças de cabelos dourados.
Ao chegarmos à FALE, no turno da noite, sabíamos com certeza que encontraríamos nosso amigo à porta. Ali estava ele em sua cadeira a observar os passantes e a receber o carinho dos amigos. Sempre havia alguém ao seu lado, conversando, filosofando, discutindo diversos assuntos. Igualmente, ao saírmos, encontraríamos nosso amigo alí. Podíamos dar-lhe aquele abraço, e então caminharíamos ao lado de sua cadeira, que ele fazia questão de conduzir sozinho até o seu ponto de ônibus. João, sempre alegre, contava com a ajuda dos amigos para colocá-lo dentro do veículo, e também para ajudá-lo a descer. Dava gosto ajudar o João ou andar junto dele enquanto ele corria com aquela cadeira como se fosse um piloto, manejando-a com incrível destreza. Se às vezes chegávamos à faculdade e não encontrávamos João, notávamos sua ausência imediatamente. Por se tratar de um ser humano tão especial, deixava uma lacuna muito grande, que só ele mesmo podia preencher. Mas ele apareceria no dia seguinte e nos faria rir novamente com sua alegria contagiante.
O tempo foi passando. Nosso amigo se formou após muita luta, muitas dificuldades e muitas lágrimas. Na mesma universidade onde ele sofreu o acidente que lhe tirou o movimento dos membros inferiores, ele conquistou seu diploma no curso superior de Letras. Foi uma grande vitória. Mas as pessoas, amigos e colegas de curso, foram se formando também. E foram partindo para outros paços. Talvez ele tenha começado a sentir-se só (embora estivesse sempre rodeado de amigos). Quem jamais saberá? O que teria passado pela mente de nosso irmão ao decidir abreviar sua jornada neste mundo? Mas ele levou seu plano ás últimas consequências, para nossa tristeza.
A verdade é que nosso amigo nos deixou, e com sua partida nos ficou este sentimento de que talvez pudéssemos ter feito algo para atrasar sua ida. Sentiremos saudades, mas ele ficará pra sempre em nosso coração. João Luciano era uma pessoa singular e por isso não será jamais esquecido por aqueles que o amavam. A imprensa pode fazer seu showzinho, mas nós sabemos quem era o verdadeiro João e por isso não nos deixaremos enganar por palavras frias em um pedaço de papel. João era carne e sangue. Ele tinha sentimentos, e foram estes sentimentos que o levaram pra longe de nós. Mas ele sempre estará perto, mais perto do que imaginávamos que ele pudesse estar quando ainda estava entre nós.
“Querido amigo João. Jesus Cristo conhecia suas dores melhor do que ninguém e há de te dar descanso e te ressucitará quando vier, para te dar a vida eterna que ele reservou para todos aqueles a quem ele ama. Nós te amamos, como sempre te dissemos, sentiremos saudades de você.”
Renato Frossard
Seria João um estranho, como os jornais buscaram retratá-lo? Seria ele um louco, um atirador e homicida? Não. João certamente não era um estranho, nem tampouco um assassino. Para nós que tivemos a honra de conviver com ele durante alguns anos, João sempre foi um grande amigo, uma pessoa alegre e extrovertida, sempre carinhoso e brincalhão. Por isso, foi com enorme choque que recebemos a notícia de que ele tivesse atirado contra alguém, e de que ele tivesse atirado contra si mesmo. Jamais imaginaríamos que ele chegasse a fazer algo assim e agora choramos a sua perda. Também nos lamentamos por não ter tido a oportunidade (ou não termos nos dado ao trabalho) de demonstrar a ele o quanto nós o amávamos. Portanto, o mínimo que podemos fazer agora, é contar a todos quem era João Luciano. Não o João dos jornais sensacionalistas, nem o João dos comentários sarcásticos nos corredores, mas aquele que nós conhecíamos e admirávamos. Nosso querido amigo que tanta falta nos fará.
Conviver com João era sempre uma oportunidade para o diálogo e para conhecer bem o que as pessoas portadoras de necessidades especiais sentem em seu dia-dia. João falava sem rodeios de seus dramas, de suas dificuldades. João falava de como sentia-se rejeitado pelos outros devido à sua condição física. Ele também mencionou mais de uma vez que não esperava envelhecer naquela condição, pois sabia que à medida que o tempo passasse, maiores seriam os desafios que ele teria de enfrentar. Por outro lado, João nunca deixava transparecer tristeza em seu falar. Nunca deixava de nos oferecer um sorriso, nem jamais deixava de nos emocionar ao nos mostrar como os mais pequenos gestos que lhe estendíamos eram valorizados e guardados com todo o carinho e atenção. Uma letra de música, uma mensagem de apoio, um papel de bala, uma nota de moeda estrangeira, uma foto...tudo se tornava memória, e tudo era convertido em um tesouro que nosso amigo guardava com carinho. João nos exibia em seu caderno estes tesouros que ele tanto estimava, e nós nem sempre compreendíamos o valor que aquelas peças tinham para ele.
João sabia o que era belo, e apreciava a beleza das mulheres, principalmente das loiras. Nós brincávamos com isto e nos divertíamos. Mas para nosso amigo, isto era coisa séria. As loiras tinham um quê a mais do que as outras mulheres, e ponto final. Ele era um especialista no assunto, e não nos restavam argumentos contra o seu vasto conhecimento do mundo das moças de cabelos dourados.
Ao chegarmos à FALE, no turno da noite, sabíamos com certeza que encontraríamos nosso amigo à porta. Ali estava ele em sua cadeira a observar os passantes e a receber o carinho dos amigos. Sempre havia alguém ao seu lado, conversando, filosofando, discutindo diversos assuntos. Igualmente, ao saírmos, encontraríamos nosso amigo alí. Podíamos dar-lhe aquele abraço, e então caminharíamos ao lado de sua cadeira, que ele fazia questão de conduzir sozinho até o seu ponto de ônibus. João, sempre alegre, contava com a ajuda dos amigos para colocá-lo dentro do veículo, e também para ajudá-lo a descer. Dava gosto ajudar o João ou andar junto dele enquanto ele corria com aquela cadeira como se fosse um piloto, manejando-a com incrível destreza. Se às vezes chegávamos à faculdade e não encontrávamos João, notávamos sua ausência imediatamente. Por se tratar de um ser humano tão especial, deixava uma lacuna muito grande, que só ele mesmo podia preencher. Mas ele apareceria no dia seguinte e nos faria rir novamente com sua alegria contagiante.
O tempo foi passando. Nosso amigo se formou após muita luta, muitas dificuldades e muitas lágrimas. Na mesma universidade onde ele sofreu o acidente que lhe tirou o movimento dos membros inferiores, ele conquistou seu diploma no curso superior de Letras. Foi uma grande vitória. Mas as pessoas, amigos e colegas de curso, foram se formando também. E foram partindo para outros paços. Talvez ele tenha começado a sentir-se só (embora estivesse sempre rodeado de amigos). Quem jamais saberá? O que teria passado pela mente de nosso irmão ao decidir abreviar sua jornada neste mundo? Mas ele levou seu plano ás últimas consequências, para nossa tristeza.
A verdade é que nosso amigo nos deixou, e com sua partida nos ficou este sentimento de que talvez pudéssemos ter feito algo para atrasar sua ida. Sentiremos saudades, mas ele ficará pra sempre em nosso coração. João Luciano era uma pessoa singular e por isso não será jamais esquecido por aqueles que o amavam. A imprensa pode fazer seu showzinho, mas nós sabemos quem era o verdadeiro João e por isso não nos deixaremos enganar por palavras frias em um pedaço de papel. João era carne e sangue. Ele tinha sentimentos, e foram estes sentimentos que o levaram pra longe de nós. Mas ele sempre estará perto, mais perto do que imaginávamos que ele pudesse estar quando ainda estava entre nós.
“Querido amigo João. Jesus Cristo conhecia suas dores melhor do que ninguém e há de te dar descanso e te ressucitará quando vier, para te dar a vida eterna que ele reservou para todos aqueles a quem ele ama. Nós te amamos, como sempre te dissemos, sentiremos saudades de você.”
Renato Frossard
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